ESTÃO FAZENDO UM BARULHO
TÃO GRANDE NOS MEUS 80 ANOS,
IMAGINA QUANDO EU FIZER 160?....
ESTOU
PEDINDO PARA O PESSOAL QUE ESTÁ CELEBRANDO
PARA TRATAR DE NÃO MORRER...
DITO POR
SUASSUNA EM ENTREVISTA À FERNANDA MONTENEGRO
OS 80 ANOS DE ARIANO SUASSUNA
Ariano Vilar Suassuna nasceu em
16 de junho de 1927 e desde o mês anterior, este que é um
dos nossos mais importantes dramaturgos brasileiros tem encantado
aos que vão ouvi-lo, para homenageá-lo por
seu octogésimo aniversário. Ele tem o dom de
comunicar temas complexos de forma simples e prazerosa e
emocionar platéias sem distinção de
sexo, classe social e idade.
Sua conferência no último
dia 7 de maio, no Palácio Itamaraty, no Rio de Janeiro,
foi maravilhosa. Seu estilo irreverente, radical e
extremamente inteligente encantou a todos os presentes: professores,
escritores, diretores e atores na aula espetáculo
dele na EMERJ - Escola da Magistratura do Estado do Rio de
Janeiro.
Era como se todos tivessem mergulhado
no mar de palavras, imagens e emoção no mundo
de Suassuna. O rico universo do sertão nordestino,
dos mitos, mistérios e revelações, justiças
e injustiças, de amor e morte, do sagrado ao profano.
Em sua homenagem foi criado o evento Ariano Suassuna- 80 anos,
com exposições, mostra de filmes, mesas-redondas
e lançamentos de livros e a mini-série adaptada
de seu romance A Pedra do Reino, que a TV Globo exibe desde dia
12 de junho.
Assim como, suas aulas-espetáculos
quando se entende o seu sonho de findar a enorme distãncia
entre o Brasil oficial e o real. Este sonho perseguido de
forma coerente em sua obra artística e em sua
atuação política-cultural, seja como professor,
seja como secretário de cultura ou em qualquer outro
cargo representativo que ele tenha assumido em sua vida.
Suassuna é acima de tudo um homem coerente e
ético, valores raros na época atual.
SÓ COMPARO SUASSUNA, NO BRASIL, A DOIS
SUJEITOS: A VILLA-LOBOS E A PORTINARI. NELES, A FORÇA
DO ARTISTA OBRA O MILAGRE DA INTEGRAÇÃO DO MATERIAL
POPULAR COM O MATERIAL ERUDITO, JUNTANDO LEMBRANÇA,
TRADIÇÃO E VIVÊNCIA COM O TOQUE PESSOAL
DE ORIGINALIDADE E IMPROVISAÇÃO.
RAQUEL
DE QUEIROZ
A nossa colunista na área cultural, Walda Menezes é uma jornalista realizada. Uma das
mais importantes deste país, em sua longa carreira
atuou como editora do suplemento dominical do O
Jornal, colunista dos Diários Associados; coordenadora
de Moda das revistas Cigarra e O Cruzeiro; Chefe de redação
da revista Desfile. Trabalhou em televisão e hoje
em dia, colabora para revistas e jornais. Entre as inúmeras
entrevistas que fez, ela destaca entre suas melhores as
com Artur Miller, Jean Claude Barrault e Ariano Suassuna,
que publicamos a seguir:
O GRANDE SUASSUNA
WALDA MENEZES
Conhecido em todo o
país como dramaturgo, autor de O Auto da Compadecida,
O Santo e a Porca e outras peças de sucesso, Ariano
Suassuna ganhou nova dimensão de ficcionista, com
o Romance d’A Pedra do Reino e o Príncipe de
Sangue do Vai-e-volta. Trata-se de um alentado volume de
mais de 600 páginas, um romance farsesco da editora
José Olympio, que para ele é apenas "um
transbordamento do meu mundo interior."
Alto, ossudo, sem pose,
desde os tempos de colégio Ariano tinha fama de fabuloso
contador de histórias. Na hora de falar de si próprio,
porém ontem como hoje, poucas palavras. Com isso,
estou preparada para uma conversa em ritmo de sala de visitas à antiga
maneira nordestina.
" Embora que eu
seja conhecido como autor de teatro, minha verdadeira vocação é a
poesia. Sou dramaturgo quase por acaso. As peças foram
escritas pro influência de Hermilo Borba Filho, e também
porque tínhamos fundado o Teatro Estudante de Pernambuco.
Mas não sou por vocação exclusiva um
escritor teatral. Sou mesmo poeta".
"TENHO ALGO DE
PADRE, POETA E CANGACEIRO"
Os gestos e a voz calmos,
misturando uma excelente capacidade de verbalização
ao carregado sotaque nordestino, Suassuna quebra o gelo:
- "Os meus inimigos
dizem que depois de O Auto da Compadecida morri como escritor.
Pode ser que devido a isso eu tenha inventado uma aparelhagem
de defesa. Mas de todas as peças eu prefiro A Farsa
da Boa Preguiça, que ainda não foi encenada
aqui. Em primeiro lugar porque é escrita em versos,
ao contrário do Auto que é
prosa com espírito poético. E depois porque se
liga muito aos cantos dos trovadores de minha terra."
E como foi que os trovadores
entraram em sua vida?
- "Eu devia ter
uns sete, oito anos. Estudava em Taperoá e como diversão,
participava com outros meninos, de caçadas e expedições às
fazendas
em volta. Nessa fase de traquinadas,
com a cabeça vazia de idéias que não fossem
as de inventar novas brincadeiras recebi o impacto da poesia
popular: ouvi, pela primeira vez, numa feira, o desafio de
viola entre dois cantadores muito famosos, Antônio Marinheiro
e Antônio Marinho. Achei bom, achei estranho. Um deles,
além de improvisar, cantou um folheto inteiro de cor.
A história falava de uma visagem. Isso no Nordeste quer
dizer assombração. Na minha alma de menino aconteceu
alguma coisa que eu não soube explicar. Só depois é que
a minha vida estava dividida em antes e depois dos trovadores."
Um marco realmente.
Que se reconhece em cada coisa que escreve:
" Sim, procuro
em tudo o que escrevo expressar o meu amor, o meu encantamento,
pelas formas mais rudes de expressão popular. Tento
fazer literatura erudita baseada em literatura de cordel".
Suassuna explica que
não pesquisou esse veio tão rico do folclore
de sua terra: "Vivi a literatura de cordel. Hoje sei
porque os folhetos de feira exerceram uma atração
tão grande sobre mim. Eles são a fonte mais
autêntica de uma literatura brasileira feita e vivida à margem
da civilização urbana e suas influências
cosmopolitas."
Nesse professor de Filosofia
da Arte, tão atento às correntes populares
não deve haver, portanto, guarida para o anti-romance:
"O anti-romance,
o anti-herói são coisas nas quais não
me enquadro. Até para a Europa, a antiliteratura é uma
covardia, um beco sem saída. Quanto mais pra mim que
sou, além de brasileiro e nordestino, sertanejo."
- "Minha obra não
é autobiográfica. E mais uma caricatura do meu
mundo interior. Isto é, todas as vivências aí estão.
Tenho alguma coisa de padre desonesto, de poeta preguiçoso,
de cangaceiro frustrado."
Suassuna refere-se aos
seus personagens preferidos, ao Chico e João Grillo
do Auto da Compadecida, ao Joaquim Simão da Farsa
da Boa Preguiça, à maledicente Dona Clarabela,
ao Quaderna do seu romance. "Este mundinho todo saiu
de dentro de mim. Acho que sublinha com riso as coisas que
eu fui vendo pela vida afora. Tem muito de recreação."
No entanto, o menino
que saiu da cidade da Nossa Senhora das Neves, capital do
Estado da Paraíba do qual o pai era governador, para
tornar-se uma figura importante da literatura brasileira,
não teve uma infância fácil:
"O meu mundo de
criança foi muito sofrido. Meu pai foi assassinado
em plena Revolução de 30, minha casa cercada
por uma multidão enfurecida. Senti medo diante das coisas
que para meus três anos de idade, não tinham explicação.
Agora ainda, falando nisso, Suassuna tem um ar patético
que comove. Mas volta imediatamente ao seu jeito tranqüilo:
- "Superei todo
o sofrimento sem análise. Um dos meus caminhos de
libertação foi o riso, o outro, a literatura".
Outras coisas iriam
marcar os primeiros anos do menino Ariano: o tempo das secas,
a morte do gado que o pai deixara, a mudança para
o sertão sob a chefia de mãe, D. Rita Villar
Suassuna "uma mulher com filhos todos juntos",
o encontro com a grande cidade quando a família radicou-se
no Recife, onde alguns de seus oito irmãos já estudavam.
Os tios, Manuel Dantas Villar, meio ateu, republicano e anticlerical,
e Joaquim Duarte Dantas, monarquista e católico, foram
seus primeiros mestres de Literatura. E provavelmente responsáveis
por alguns dos sentimentos que até hoje o habitam.
Monarquista e católico
militante, Suassuna desperta comentários controversos:
Como conciliou a contestação ao padre e à Igreja?
Tal como Guerra Junqueiro que criticava o clero porque o
queria bom, ideal, possuidor de todas as virtudes, ou como
Bunuel eternamente polarizado pelo cristianismo, ainda que às
avessas. Mesmo que seja contra, o problema da religião é angular
para o indivíduo que, como Suassuna, está preso à formação
religiosa.
E quanto ao monarquismo,
talvez se explique pelo fato de que ele vive inquieto porque
o mundo muda. Vinculado à vida patriarcal do Nordeste,
a sua frustração é que para viver hoje, é preciso
desvincular-se dela.
Antes do Romance d’A
Pedra do Reino e o Príncipe do Sangue do Vai-e-Volta
lançado pela Livraria José
Olympio Editora, Suassuna escreveu uma novela curta. A História
do Amor de Fernando e Isaura: Sei não, achei que não
podia publicar, não estava bem feito.
No atual, ilustrado
por ele próprio com gravuras do tipo que se vêem
nos folhetos de feira e que na história são
feitas por um dos personagens, há um binômio:
"O épico
e o picaresco. Estão presentes no meu livro como na
literatura de cordel. O tom predominante é o da farsa.
Você pode escrever um livro profundamente imoral sem
palavras ásperas. Ou o contrário. O meu está neste
caso. A linguagem áspera é
herdada do romanceiro popular. O possível mal que poderia
ocasionar às pessoas ainda em formação, é corrigido
pelo riso. Carlos Drummond de Andrade achou mesmo de fazer um
paralelo entre meu livro e Rabelais."
“TODO
HOMEM É UM HERÓI E UM ORÁCULO PARA ALGUÉM.”
RALPH
WALDO EMERSON, escritor e filósofo
Tom Coelho, com formação
em Economia pela FEA/USP, Publicidade pela ESPM/SP, especialização
em Marketing pela Madia Marketing School e em Qualidade de
Vida no Trabalho pela USP,
é consultor, professor universitário, escritor
e palestrante. Diretor da Infinity Consulting, Diretor Estadual
do NJE/Ciesp e VP de Negócios da AAPSA. Contatos através
do e-mail tomcoelho@tomcoelho.com.br.
Visite: www.tomcoelho.com.br.
A OFICINA
Passeando por Recife fui conhecer
a Oficina Brennand. Os Brennand são uma família
rica e Francisco – que se revelou um talentoso desenhista,
pintor, escultor e ceramista – dedicou-se por mais
de 30 anos a um sonho.
Transformou a velha olaria que
seu pai fundou em 1917 num complexo artístico chamado
Oficina Brennand. Saí de lá sem fôlego...
A velha olaria arruinada foi aos poucos reformada. Muitas áreas
ainda mostram o estado de abandono original, mas agora – qual
uma ruína grega – é um abandono conservado,
como que para servir de testemunha da história. Francisco
Brennand é chamado de “Mestre dos Sonhos”.
Sua oficina é gigantesca: são mais de
10 mil metros quadrados de grandes áreas de exposição
com centenas de esculturas, uma mais instigante que a outra.
São sonhos, pesadelos, piadas, críticas, símbolos
fálicos, formas eróticas em meio a jardins projetados
por Burle Marx. No meio da oficina, uma capela sombria. Em seu
interior um ambiente sagrado, com música clássica
ao fundo e nenhuma imagem sacra. Nenhuma cruz. Nenhum anjo. Nenhuma
santa. Nenhum cálice. Apenas esculturas, formas orgânicas,
objetos indefiníveis. Fascinante! O sagrado está
lá, na atmosfera, sem precisar de ícones.
Brennand está com oitenta anos e isso fica claro quando
apreciamos sua produção. Naquele lugar uma vida
se apresenta diante de nós. Só o tempo permite
construir algo como o que vi por lá. A integração
perfeita entre arquitetura, paisagismo, escultura, pintura, desenho...
A oficina de Francisco Brennand é
uma demonstração de como a sensibilidade pode mudar
a realidade. Caminhando pelos corredores, a mente entra
em ebulição.
Ganha um
sopro de frescor. A oficina de Brennand é um spa mental.
Saímos de lá provocados, motivados, inspirados,
com a sensação de que estivemos em outro planeta.
O planeta Brennand. O arquiteto Fernando de Barros Borba definiu
com perfeição a arte de Brennand: “...Mas
para quê descrever? Palavra alguma pode dizer a arte
de Brennand. A literatura é inútil. Ele escreve
com a cerâmica”.
Quer ver? Acesse www.brennand.com.br e tente descrever o que vê...
Pois é... Saí de lá embriagado de arte,
em direção à loja-lanchonete, cuja decoração
segue a do conjunto. Pedi uma deliciosa empadinha, um suco
diferente, comprei um catálogo maravilhoso, uma peça
de cerâmica e sentei-me para curtir o que acabara de
ver.
E então percebi que algo estava errado.
No espaço daquela lanchonete
bonita, onde a arte comanda a arquitetura, as garçonetes
colocaram como trilha sonora um disco de pagode. Fui escarrado
para fora do planeta Brennand, direto para o Brasil. Pagodinho
enjoativo, insuportável pagodinho. Daqueles gravados
ao vivo com o povo cantando junto. Se fosse o Pagode – com “Pê” maiúsculo – do
grupo Fundo de Quintal... Mas não. Era um daqueles
conjuntinhos de acrílico... Aquilo foi uma heresia.
Fui falar com a gerente e ela me disse tristemente:
– Cuido da loja, não cuido da lanchonete. E esse
som, quem coloca são as meninas de lá. É um
horror...
Pronto. Lá estava eu mais uma vez diante da contradição
chamada Brasil. De um lado a arte em sua mais pura expressão,
tocando nossas almas. De outro, escolhido pelo “povo”,
o comércio das gravadoras, distorcendo e explorando a
arte em seu mais baixo nível. Um retrato do Brasil. Mas
como “sou elite”, tenho que cuidar para evitar esse
meu “preconceito contra o popular”...
Olha, nada disso tira o brilho do que vi
em Recife. Estando por
lá, não perca a oportunidade de visitar a Oficina
Brennand e abrir sua alma para a sublime experiência
da arte.
E o pagode? Bem, talvez essa praga um dia desapareça,
esgotada em sua mediocridade. Mas o gênio de Francisco
Brennand, lá em Recife, ficará. Mas ficará para
poucos. Para uma elite. O povo estará mais atento ao pagode. É pra
isso que ele está sendo treinado.
Luciano Pires é
jornalista, escritor, conferencista e cartunista. Faça
parte do Movimento pela Despocotização do Brasil,
acesse www.lucianopires.com.br.
MEUS HERÓIS MORRERAM DE OVER-DOSE
MEUS INIMIGOS ESTÃO NO PODER
IDEOLOGIA
EU QUERO UMA PARA VIVER.
CAZUZA
SARTRE FARIA
102 ANOS
Derrubar deuses e dissolver esperanças da redenção
celestial eram as preocupações do filósofo
existencialista Jean-Paul Sartre no século passado.
Grande revolucionário, novelista francês, teatrólogo se preocupou lembrar ao homem que ele era o dono de seu
próprio destino, e por causa disto, ele tinha a missão
de reger sua vida de forma autônoma, solidária
e racional, um desafio constantemente eclipsado pela frustração
do fim inadiável e pelo peso inevitável da
responsabilidade.
Esta consciência da liberdade, tinha um gosto amargo
e cor de sangue, que para o pai do existencialismo deveria
ser conquistada pela auto-determinação, já que
fazia do homem o artífice de sua própria realização,
início, meio e fim de toda a existência.
Sartre nasceu em 21 de junho de 1905 e, com um ano de vida,
ficou órfão de pai. Foi educado pela mãe
e pelos avós maternos, cercado de mimos e proteção,
herdando do avô escritor o gosto pelos livros. Pequeno
e estrábico, sua feiúra a toda hora parecia
mostrar-lhe que a realidade também não era
nada bela e que cabia ao ser humano a responsabilidade de
construí-la.
Em 1924, aos 19 anos, tornou-se aluno da Escola Normal Superior,
onde conheceu Simone de Beauvoir, mulher, amiga e amante
de quem nunca se separou. Lá foi contemporâneo
de escritores que viriam a ser intelectuais de renome, como Raymond
Aron, Maurice Merleau-Ponty, Emmanuel Mounier, Jean Hippolyte,
Claude Lévi-Strauss e a filósofa social esquerdista
da escritora Simone Weil, (1909-1943), que era ativista na
resistência à invasão alemã e
ao nazismo.
Em 1933 vai a Berlim estudar fenomenologia, que afirma que
tudo que podemos saber do mundo resume-se a fenômenos
da consciência, que são objetos ideais existentes
na mente, cada um deles é designado por uma palavra
que representa a sua essência, sua "significação".
Foi na Alemanha que Sartre escreve a Melancolia, romance
recusado pela editora Gallimard, a mesma que em 1937, o publica
com o título
"A Náusea".
A fama começou com este romance,
escrito em forma de um diário, que revelava os sentimentos
de repugnância do personagem Antoine Roquentin, em
relação ao mundo material, inclusive pela consciência
de seu próprio corpo. Estas posições
filosóficas é que Sartre continuaria a desenvolver.
Em 1939, lançou os contos de "O Muro" mas, é
convocado como soldado meteorologista para servir em Essey-les
onde, em abril do ano seguinte, foi feito prisioneiro e
enviado para um campo de concentração alemão.
Em agosto, é transferido para o campo de Trier,
na Alemanha, onde estavam aprisionados 25 mil outras vítimas
da tirania nazista. Usando um falso atestado médico
que lhe atribuía cegueira parcial no olho direito,
Sartre ganha a liberdade em março de 1941, voltando
imediatamente a Paris, onde entra para a Resistência
Francesa e funda o movimento Socialismo e Liberdade, grupo
que lutava contra a ocupação alemã.
É em 1943 em plena guerra,
que fez a primeira publicação de uma peça
teatral, "As Moscas", que envolve veladamente o
comando alemão e os colaboracionistas, e publicou
também o famoso L'Être et le néant (1943
- "O Ser e o Nada"), obra fundamental da sua teoria
existencialista e seu livro mais emblemático. Nele
Sartre aprofunda seu pensamento com respeito à consciência
humana, como "um nada" em oposição
ao Ser. A consciência é "não-matéria",
nada, e por isso mesmo escapa a qualquer determinismo. Ela é essencialmente
negadora das coisas em-si mesmas, na medida em que se encontra
revestida da característica ontológica de ser,
ela própria é o seu próprio nada.
A teoria da negatividade da consciência é uma
das perspectivas do pensamento de Sartre. Por isso, precisamos
de outra pessoa para conhecer plenamente a nós mesmos.
Mas a relação com outras pessoas é um
conflito. Segundo ele, todo tipo de relação
humana está
condenado ao fracasso; através delas nunca atinjo o meu
objetivo; a indiferença, o sadismo, o ódio, o masoquismo,
o amor, a linguagem, são diversas manifestações
da minha tentativa, sempre fracassada, de conviver com outra
pessoa.
Essas obras e mais "Entre 4
paredes" lançado em 1944, fizeram dele a mais
célebre dos escritores franceses de seu tempo. É nesta
peça que teve, nos ensaios iniciais, a direção
e a participação de outro grande existencialista,
Albert Camus é onde Sartre lança seu tema mais
conhecido "O inferno são os outros".
Terminada a guerra, Sartre funda a revista "Temps Modernes" e
publica muitos livros na França (entre eles, o celebrado "A
Idade da Razão"), obtendo a simpatia do povo francês,
para quem o existencialismo se tornou acessível. Entre
1947 e 1950, dedica-se febrilmente à produção
literária, lançando quase 40 obras entre artigos,
ensaios, livros, conferências e peças teatrais.
Durante a década de 50, Sartre dedica-se às viagens,
visitando inclusive o Brasil, onde passou três meses ao
lado de Simone de Beauvoir.
Em outubro de 1964, mesmo ano em que lança a auto-biografia "As
Palavras", recusa-se a receber o prêmio Nobel de literatura.
No ano seguinte, aumenta sua oposição a De Gaulle,
o que lhe traria obstáculos à
distribuição do jornal "La Cause du
Peuple", obrigando o filósofo a vender pessoalmente
números do informativo nas ruas de Paris, fato não
raro em uma vida de manifestações públicas,
ações diretas e presença constante na linha
de frente dos movimentos populares.
Aos 71 anos, no entanto, Sartre
já
está cego, impossibilitado de ler e escrever. Morre três
anos depois, de um tumor pulmonar em 15 de abril de 1980. Em
seu funeral foi homenageado por uma multidão estimada
em 25.000 pessoas.
CENTENÁRIO
DE CAIO PRADO JÚNIOR
A Brasiliense é uma das empresas
editoriais mais importantes do Brasil. Fundada em 1943 pelo
intelectual Caio Prado Júnior, ela se tornou um marco
no mercado editorial. Associada ao melhor da formação
cultural brasileira, a editora alinha a sua atuação
ao pensamento crítico nacional. Atualmente é dirigida
por Danda Prado e Maria Teresa B. de Lima.
Em 2007,
ano do centenário do fundador da Editora Brasiliense,
Caio Prado Júnior, está prevista uma ampla
programação comemorativa, com destaque para
o 1º Prêmio Caio Prado Júnior e o lançamento
do livro Caio Prado Júnior – Uma trajetória
intelectual, de Paulo Iumatti.
O concurso
literário, que tem por tema Brasil Contemporâneo – Século
XXI, premiará cinco projetos editoriais e um gráfico
que propiciem reflexões sobre os elementos da formação
da realidade brasileira. Os melhores trabalhos editoriais,
eleitos por uma comissão de especialistas da atividade
literária brasileira, vão compor uma coletânea
a ser publicada pela Editora Brasiliense. Os vencedores do
prêmio serão divulgados no dia 30 de setembro
de 2007.
A programação
do centenário inclui também o seminário
Caio Prado Júnior e o Novo Brasil; exposição
Caio Prado Júnior e a Formação do Brasil;
edição especial da Revista Brasiliense; e um
documentário produzido pela TV Cultura.
OS 74 ANOS DE HISTÓRIA
DA PRIMEIRA ESCOLA DE SOCIOLOGIA DO PAÍS
Pioneira no ensino e na prática das Ciências Sociais no Brasil, a história da
Fundação Escola de Sociologia e Política
de São Paulo (FESPSP) se confunde com a história
de construção do Brasil moderno, urbano e industrial.
Criada em
1933,
a Instituição
tem uma trajetória pioneira na consolidação
do ensino e da pesquisa em nível superior no país,
orientada desde o início para o estudo da realidade
brasileira e para a formação de profissionais
capazes de atuar no processo de modernização
da sociedade. Na década de 40, foi também na
FESPSP que se instalou o primeiro curso de Biblioteconomia
de São Paulo.
Ao longo destes 74 anos de história,
a FESPSP reuniu em seus arquivos verdadeiras preciosidades
das ciências humanas brasileiras: são milhares
de documentos, livros, periódicos e imagens, que além
de contar a história
da instituição, refletem também sobre
a formação das Ciências Sociais e da
Biblioteconomia no Brasil.
Os esforços
reunidos nos últimos anos para resgatar, restaurar
e conservar essa documentação tornou possível
a realização da exposição Acervo
da FESPSP: registros da Sociologia e da Biblioteconomia no
Brasil, que a instituição abre ao público
a partir desta segunda-feira, dia 28, marcando as comemorações
de seu aniversário de 74 anos, completados em 27 de
maio.
A mostra é formada
por 13 painéis ilustrativos que contam um pouco sobre
a história da instituição e de seus
personagens, além da exposição de documentos,
publicações raras, objetos históricos
e de curiosidades documentais relacionadas a importantes
personalidades da intelectualidade e da política brasileira
que fizeram parte da história da FESPSP, como Sérgio
Buarque de Holanda, Darcy Ribeiro, Florestan Fernandes, Roberto
Simonsen, Luiza Erundina, entre outros.
A exposição,
que foi concebida com o intuito de apresentar uma amostra do acervo organizado pelo Centro de Documentação
e Memória da FESPSP (CEDOC), ficará aberta
ao público até o próximo dia 02 de Julho
no tradicional Casarão da FESPSP, sede da Escola de
Sociologia e Política da Instituição
(ESP).
Exposição
Acervo da FESPSP: registros da Sociologia e da Biblioteconomia
no Brasil até julho, no Casarão da FESPSP ,
Rua General Jardim, 522 - Vila Buarque - São Paulo
- SP, próximo às estações de
Metrô República e Santa Cecília. Informações:
(11) 3123 7800 (ramais 834 e 810) Entrada Gratuita!
O
BRASIL CABOCLO DE CORNÉLIO PIRES
Centro Cultural Banco do Brasil,
de São Paulo (CCBB-SP), apresenta entre os dias 05
de junho a 17 de julho, sempre as terças-feiras às
13h e às 19h30, o projeto "O Brasil Caboclo
de Cornélio Pires". Uma homenagem a esse caipira
iluminado, a essa figura exuberante que entendeu e traduziu,
como poucos, a grandeza da alma do povo caipira, seu cotidiano
afetivo e sua cultura. Grandes nomes da música caipira
como Cacique e Pajé e as Galvão marcam
presença nesse evento.
Cornélio (1884-1958) foi jornalista, escritor, poeta,
cineasta folclorista e um estudioso apaixonado pela rica cultura
do povo rural. Em 1914, realizou as Conferências Caipiras
Cornélio Pires, em que apresentava artistas de modas avioladas.
Foi o grande incentivador de duplas que fizeram história,
como Zico e Ferrinho e Caçula e Sorocabinha. Pioneiro
na promoção de turnês de música caipira
pelo Brasil, ele próprio decidiu viajar pelo interior
de São Paulo e de outros Estados, com seu itinerante Teatro
Ambulante Gratuito Cornélio Pires, como apresentador e
caipira humorista.
Figura importante da nossa história, o folclorista será lembrado
durante os meses de junho e julho, por convidados especiais que
pertencem a esse universo.
PROGRAMAÇÃO
12 de junho/07 – Liu e Léu
19 de junho/07 – As Galvão
26 de junho/07 – Pedro Bento e Zé da Estrada
03 de julho/07 – João Mulato e João Carvalho/
Jacó e Jacozito;
10 de julho/07 – Cacique e Pajé/ Zé Mulato
e Cassiano
17 de julho/07 - Oliveira e Olivaldo/ Os Favoritos da Catira.
"O Brasil Caboclo de Cornélio
Pires" no Teatro do Centro Cultural Banco do Brasil -
Rua Álvares Penteado, 112 - Centro - São Paulo
das13h e às 19h30, Ingressos: R$ 6,00 (inteira) R$ 3,00
(meia-entrada)
Informações: (11) 3113-3651 / 3113-3652 -
ww.bb.com.br/cultura
OS
ANOS DE OURO DA LUTA LIVRE NO BRASIL
É possível que, para
a maioria das pessoas com mais de 35 anos, o telecatch não
seja mais do que uma pequena lembrança. Para os mais
jovens, talvez, nem isso.
Em seus anos de glória, entre
1960 e 1980, porém, o telecatch rivalizava em pé de
igualdade com o futebol na preferência dos telespectadores
brasileiros.
A turma da luta livre fez um gigantesco
sucesso pelas TVs do Brasil e agora tem sua vida e glória
contada no livro “Telecatch – Almanaque da Luta
Livre”, recém-lançado pela Matrix Editora.
A obra mostra que astros como Fantômas,
Tigre Paraguaio e Ted Boy Marino apresentavam suas habilidades
em programas de ibope elevado e eram os heróis de
muitos brasileiros, competindo pela simpatia da população
com ídolos esportistas mais “ortodoxos”,
como Pelé
ou Éder Joffre.
Para alcançar tamanho sucesso,
os programas de telecatch tinham seus segredos: tesouras
voadoras, arremessos de adversários contra as cordas,
juízes roubando descaradamente para os lutadores maus,
capangas invadindo o ringue, limão espremido no olho
do oponente e um arsenal de outros truques.
Na época, o telecatch transformou
a maneira de transmitir eventos esportivos pela TV — foi
o primeiro programa de esportes a contar com patrocinadores
fixos, no Brasil.
No mundo do telecatch, a avaliação
exagerada (positiva ou negativamente) do carisma e dos atributos
físicos dos atletas, a aplicação de
golpes baixos, a exposição calculada de determinados
aspectos do caráter dos lutadores e diversos fatores
alheios às normas esportivas contribuíam decisiva
e descaradamente para o resultado dos combates. Nada disso,
porém, afastava o público; antes, o contrário.
De acordo com a lógica convencional,
ao término de uma partida de futebol ou de uma luta
de boxe cujo desfecho contrariasse a opinião da maioria
dos torcedores, imediatamente aparecem suspeitas como: foi
marmelada? Os árbitros foram comprados? Os atletas
fizeram corpo-mole? Na lógica do telecatch, tudo isso
sempre foi encarado de forma diferente.
Ao final de um embate — por
vezes sangrento —, a suspeitas eram exatamente invertidas:
teria sido de verdade tudo aquilo que transcorrera sobre
o ringue? Por que o árbitro, aparentemente, permitiu
que um dos maiores queridinhos da torcida derramasse tanto
sangue —
antes de, afinal, ser declarado vencedor de uma luta, como já era
esperado? Teriam certos atletas aproveitado a oportunidade oferecida
por uma luta para resolverem diferenças pessoais em seu “ambiente
de trabalho”? Serviria o uso de fantasias e máscaras,
por certos lutadores, para esconder as marcas deixadas por golpes
realmente sofridos?
Nessas dúvidas, deixadas
nas mentes de seus espectadores, é que residia o charme
e o poder de atração do telecatch.
ALGUMAS CURIOSIDADES
DA OBRA
Fantômas – O lutador
mascarado, que sempre subia ao ringue com a perna retesada,
foi interpretado por diversos lutadores, ao longo dos anos,
em diversos programas. Um desses intérpretes foi Guerino
Cicon, que atuou nas lutas transmitidas pela televisão
até meados dos anos '70. Seu famoso truque de cena,
como Fantômas, fez de suas pernas o alvo preferencial
de seus adversários. De tanto levar golpes nas pernas,
Guerino sofreu um desgaste excessivo nas cartilagens dos
joelhos; ao ponto de precisar ser submetido a uma intervenção
cirúrgica para voltar a andar normalmente. Hoje, ele
usa uma bengala; enquanto aguarda por uma nova cirurgia para
a colocação de uma prótese num dos joelhos.
Ted Boy Marino – Em 1962,
já era o maior astro dos programas de luta-livre do
Canal 9, de Buenos Aires, e do Canal 12, de Montevidéu.
O estilo elegante de portar-se sobre o ringue e a figura
apolínea de Ted Boy Marino eram tão caros ao
público que — segundo boatos que circulavam,
naquela época —, mesmo dentro do contexto dos
combates coreografados do telecatch, arranjos especiais eram
feitos com seus adversários para que o astro não
se machucasse muito seriamente, em suas lutas.
Nino Mercury – Em 1985,
ao ser arremessado contra as cordas de um ringue, uma delas
arrebentou com o impacto. Nino aterrissou de cabeça
no chão. Foi imediatamente levado consciente
a um hospital daquela cidade. O lugar, porém, não
contava com equipamentos e pessoal adequado para atender
a um caso como o dele. Nino foi, então, encaminhado
ao Hospital das Clínicas,
em São Paulo, numa ambulância. Na primeira curva da estrada, Nino foi projetado
para fora da maca, sofrendo uma violenta queda dentro da ambulância,
devido à
negligência dos atendentes, que não o haviam
imobilizado adequadamente, no interior do veículo.
No Hospital das Clínicas, diversos exames e radiografias
constataram que ele não havia sofrido nenhuma fratura.
Apenas um mês e meio depois disso, ele já estava
lutando novamente.
Michel Serdan – Decidiu empresariar
sua própria equipe de lutadores, da qual ele mesmo
também fazia parte. Serdan organizou seu primeiro
evento esportivo, na cidade de Andradina, SP, ainda no início
da década de 1960; graças, no entanto, a uma
série de contratempos e à sua própria
inexperiência empresarial, o evento foi um retumbante
fracasso. Além de cobrir apenas parcialmente as despesas
com a organização, o montante da arrecadação
não foi suficiente sequer para pagar a conta do hotel
em que os lutadores hospedavam-se — do qual todos tiveram
de evadir-se, às escondidas.
Caboclo Selvagem – ao invés
dos lutadores mascarados, sua figura feia era quem costumava
assustar mais as crianças.
Telecatch – Almanaque da Luta
Livre tem 160 páginas.
E custa R$ 27,00